• Palavras de um pai órfão

    by  • 19 de outubro de 2012 • AGENDA • 2 Comments

    CARTA DE PAIS ÓRFÃOS DE FILHOS PELA SEGURANÇA NO TRÂNSITO BRASILEIRO

    Fernando Diniz*

    A perda de um filho é tão antinatural que não há em nossa língua um termo que defina essa situação.

    Porém, o paradoxo em nosso país é que, por mais antinatural que seja o trânsito está matando como nunca os nossos jovens.

    Para nós, pais, parentes e amigos de vítimas de trânsito, a dor intensa do primeiro momento, aumenta a cada dia. Em primeiro lugar, pela certeza de que não teremos mais nossos jovens juntos de nós. Em segundo lugar, pela constatação cruel de que, pelo descaso e omissão de autoridades e de parcela expressiva da sociedade, novos pais órfãos de filhos juntar-se-ão ao já gigantesco contingente de eternas vítimas da violência do trânsito.

    Contudo, dessa indescritível dor, há que tirarmos uma lição. A família, nesse momento, deve continuar firme nos seus propósitos. Permanecer forte e seguir em frente, sem jamais virar as costas para a vida. Não há alternativa para aqueles que são alcançados por tragédias tão marcantes como a perda de um filho de maneira prematura. Nossa missão passa a ser: não desanimar, ser solidário, ter fé e permanecer produtivo… Esse deve ser sempre o nosso lema.

    O que aprendemos desta trágica experiência? Podemos garantir que aprendemos, aprendemos muito!

    O que modificou em nossas vidas? Muita coisa… É verdade!

    E como fica a cabeça dos pais de uma vítima fatal de trânsito? Como fica a família? Já pensaram nisso? Famílias permanentemente enlutadas… Dia dos Pais… Dia das Mães… Natal sem eles… Aniversários… Sonhos e esperanças brutalmente interrompidas… Netos que nunca teremos… Pensaram nisso também?

    Se nunca pensaram é porque tiveram a dádiva de não serem alcançados pela tragédia. Entretanto, isso não imuniza ninguém. Sabemos que, é extremamente desconfortável para muitos o assunto “dor”, mas vamos falar um pouco de dor, sim! Não podemos ficar indiferentes à dor de tantas famílias que perdem seus familiares todos os dias em nossas cidades em acidentes e tragédias de trânsito. A verdade é que, não sofremos apenas por perdas decorrentes de tragédias de trânsito, mas sim, por todo o tipo de perda. Então, constatamos a triste realidade da banalização da vida, seja por bala perdida, por violência doméstica e até, por violência verbal que, muitas vezes maltrata e fere mais que uma agressão física. As notícias das mais variadas formas de perdas fatais, entram pelas nossas telinhas todos os dias como fatos corriqueiros e, se perdem entre manchetes de traficantes, políticos corruptos, bandidos, sonegações, guerras, atentados etc., ocupando um espaço que, deveria ser ocupado pela VIDA, ou pelo pleno direito de viver em paz.

    O que está acontecendo? A nossa sociedade ficou totalmente insensível? Estão acreditando que tragédias só acontecem com os outros? O que passa pela cabeça de nossos governantes, dos senhores da lei, da própria sociedade organizada para não adotar atitudes firmes e medidas objetivas para combater essa tragédia absolutamente fútil, previsível e, tantas vezes anunciada?

    Nosso fardo é pesado, mas encontramos forças para suportar além do nosso, o peso da dor de outros irmãos.

    Como vítimas de trânsito, podemos e devemos cobrar respostas daqueles que detém o poder. Reservamo-nos o direito de cobrar das autoridades constituídas, soluções definitivas, respeito e justiça. E, o que temos visto são estatísticas dos acidentes e tragédias de trânsito aumentando todos os anos, frequentemente por culpa de irresponsáveis que, desafiam a lei e os direitos de vida de cada um de nós. A impunidade, a omissão das autoridades, a benevolência da lei e a lentidão da justiça.

    Temos a cada ano, milhares de jovens habilitando-se para o trânsito e, sem perceber, alistando-se nessa guerra selvagem onde o inimigo anônimo e disfarçado, pode ser que cruze seu caminho.

    “SENHORES, GUERRAS MATAM MENOS QUE O TRÂNSITO”

    A pergunta que continuaremos a fazer até que, atitudes sejam tomadas é: Continuaremos a presenciar a morte de nossos filhos como frutos maduros caindo de árvores?

    Lembrem-se:

    - “A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos”.

    *Fernando Alberto da Costa Diniz é pai de Fabrício Diniz – vítima fatal, falecido aos 20 anos em 10 de março de 2003 em trágico acidente de trânsito na Avenida das Américas, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Fabrício faleceu junto com mais duas amigas, Mariana e Juliane, todos sentados no banco de trás de um automóvel Peugeot sem uso de cinto de segurança. Motorista e carona escaparam ilesos, Marcelo Kijak, o condutor irresponsável está foragido e procurado pela Interpol em todo o mundo.

    Observação: O texto acima foi escrito em 2004

    Use suas redes sociais. Compartilhe!

    About

    Pedagoga especializada em Surdez e Terapeuta Ericksoniana com especialização em situações de luto

    2 Responses to Palavras de um pai órfão

    1. marciakmr@gmail.com
      1 de novembro de 2012 at 13:48

      Não tenho palavras! Simplesmente nâo tenho palavras…se pudesse…se estivesse perto, ofereceria meu ombro…meu colo…meu abraço aos pais dos jovens, porque não há palavras…nada do que qualquer um venha a proferir vai fazer diferença… e quanto a mim…estando aqui…assino e encaminho à todos os meus conhecidos o link do “manifesto”.

    2. Gutemberg Rocha
      23 de novembro de 2012 at 4:27

      Tenho 25 anos e sou pai de uma criança de 2 anos, no dia 6 de outubro foi tirado parte da minha familia decorrido de um acidente de trânsito também, foi ceifado minha mãe (56 anos), meu irmão(31 anos) e minha sobrinha(4 anos) em um trágico acidente no norte de minas, ou seja, dias antes da publicação desse texto, passou-se um mês e meio, e a consequência são catastróficas, meu pai perdeu a esposa que conheceu quando tinha 18 anos, hoje ele tem 52, o primeiro filho, a primeira neta, a neta que tanto lutou pela guarda, 15 dias antes do ocorrido minha familia ganhou o direito de cuidar da criança, criança que foi ceifada…..o pai da criança pelo que muitos pensam que faleceu no acidente, na verdade está vivo e morando com meu pai, pois ele não viajou……..são dois pais orfãos como escritor do texto publicado….são marcas eternas, marcas que ficam no coração, que marcam a alma, que não palavras suficiente para descrever, somos familias que viraram “estatistica”, somos simplesmente números, os acidentes se tornaram cifras e gráficos……apenas isso……….todos os dias familias são lançadas a um mar de dor como a minha e da Fernando Diniz……essa dor não pode ser contada ou paga com os miseros DPVAT, o governo “paga” pela sua dor……. a vida de cada familiar meu custou R$13.500,00, a dor da perda de cada um custa uma “oferta” de R$13.500,00, revoltante, gritante e desesperador…..

      hoje estou aqui, as 05:23, final de plantão do meu serviço, varando a madrugada e pensando sem parar em minha querida mãe que tanto me apoio, que deu o primeiro banho no meu filho, minha sobrinha que estava sempre brincando com meu filho, meu querido irmão mais velho que eu o sempre encontrava na casa dos meus pais e conversamos sobre tudo, pois eramos casados, a esposa do meu irmão havia falecido dois dias antes dele decorrido de uma luta intensa contra o câncer…..eramos 9, hoje somos 5, meu pai, meu irmão, meu filho e minha esposa……

      há uma frase que citada pelo Fernando Diniz que me marcou bastante….
      “A morte não é a maior perda da vida. A maior perda da vida é o que morre dentro de nós enquanto vivemos”.

      Resumindo o que sinto dentro do meu peito hoje é que meu coração foi “estrupado”…….tal dor equipara-se a violência sexual…….

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de email não será publicado

    Imagem CAPTCHA

    *